Uyuni: Mais Além do Espelho do Mundo

marco uyuni

Um sonho de infância era conhecer o Salar de Uyuni, um dos destinos mais famosos da América do Sul e que atrai uma multidão de mochileiros europeus, jovens israelenses recém saídos de três anos de serviço militar e grupos de japoneses que andam em grupo com suas câmeras com múltiplas lentes. No entanto, além do deserto de sal, gostaria de conhecer personagens locais e suas histórias. Chegando a cidade de Uyuni, de 30,000 habitantes e suas ruas de terra cheias de lixo e cachorros de rua, visito dezenas de agências de turismo. Todas oferecem um pacote padrão: guias bilíngues, hospedagem em um deserto de sal e ¨fotos engraçadas para postar no Facebook¨ segundo um vendedor.

Não compro nenhum dos pacotes oferecidos e decido perambular pela cidade. Na rua principal -uma das poucas asfaltadas- escuto Losing My Religion de REM, vindo de um segundo andar. Eu entraria em qualquer lugar em que estivesse tocando REM. Abro a porta vermelha de madeira, subo pela escadaria com degraus pintados de preto e branco e chego a um salão. Numa mesa estavam dispostas fotos das mais diversas paisagens naturais do país, desde a Amazônia até impressionantes imagens do Lago Titicaca, que de tão grande parecia o mar que o país não tem, além de livros sobre a produção de vinho boliviano da região de Tajira (“vinho de altura” como dizem eles: quase todo o marketing de produtos Made in Bolívia leva a alcunha de ¨de altura¨). Passo ao ambiente ao lado abrindo uma pesada porta de correr e aí se vêem fotos de frequentadores por toda a parede até o teto. São pessoas que aceitaram o “desafio”, ou seja: tomar dez tragos de diferentes bebidas destiladas e um copo de cerveja no menor tempo possível. O recorde era de 39 segundos e pertencia a uma belga de 19 anos de idade. Me sento junto ao bar e sou atendido por Orlando, que fazia air guitar e balançava sua cabeleira ao som de Always de Bon Jovi. Pergunto por cervejas locais e Orlando me sugere a mais popular da região: Potosina, uma pilsen que se parece a Skol e cuja leveza e sabor aguado casam pefeito com um amendoim com teor exageradamente alto de sal.

Sentado ao bar junto a minha Potosina, noto folhetos sobre passeios ao Salar. Agora soava Living On The Edge do Aerosmith. Analiso o material e vejo que o nome da empresa turística é o mesmo que o do bar – Extreme Fun Travel. O dono daquele bar que promovia concursos de quem bebia loucamente mais rápido também levava turistas para conhecer o deserto de sal. Na hora penso: “tenho que conhecer o Salar com esses caras”. Pergunto a Orlando pelo dono e ele me pede para esperar, pois “já já chegaria”. Enquanto isso me serve outra cerveja: Paceña, marca líder no país, produzida em La Paz e que pertence a Ambev.

Depois de uma seqûencia de Gun’s and Roses, Blur, Coldplay, Scissor Sisters, Foster The People e Amy Winehouse chega os dono daquele lugar: Roberto, que vem acompanhado de seu sócio Juan Carlos. Cada um acende um cigarro tão logo chegam. Na Bolívia é permitido fumar dentro de estabelecimentos após as 21h. Roberto é biólogo. Sua formação o levou a mudar-se de sua La Paz natal para a Amazônia boliviana, primeiro catalogando aves e depois capacitando guias turísticos locais que jamais haviam deixado suas aldeias. Chegou a cidade de Uyuni onze anos atrás e terminou virando dono de bar. Roberto explica como a paisagem do turismo na cidade mudou desde que chegara: “em 2006 havia 20 hotéis e 40,000 turistas por ano. Hoje são 180 hotéis e 200,000 turistas por ano”. A vida de empresário no interior boliviano nem sempre foi fácil. Roberto esteve às portas de declarar falência e um empréstimo de 300 dólares de um amigo salvou seu negócio. Há nove meses ele decidiu trocar o preparo de coquetéis (quase todos levando folha de coca) para desenvolver pacotes turísticos alternativos. Assim virou sócio de seu amigo Juan Carlos.

Juan Carlos nasceu e se criou em Potosí. Entediado em seus dezoito anos de idade, resolveu ir trabalhar nas minas de prata da região. Durou três meses como mineiro. Da experiência ele carrega calos cinzas nas mãos e a ideia de que levaria visitantes a conhecer a realidade de seu país. Ambos pareciam genuinamente contentes pelo que faziam. Os acompanho a sua sala de trabalho, com piso e paredes de sal. Eles explicam que o material é tão farto na região que uma tonelada custa 50 bolivianos, ou 25 reais. Ali me sugerem ir além do Salar do Uyuni e explorar a região, onde poderíamos buscar múmias pré-hispânicas e povoados isolados. Quanto a múmia pensei: “se isso for verdade, me sentirei em Indiana Jones, e se eles estão somente me enrolando, merecem o crédito pela criatividade”.

Na manhã seguinte saímos em busca das múmias pré-hispânicas. Nossa primeira parada foi Pulacayo, um povoado fundado em 1890 pelo então Presidente Aniceto Arce. Pulacayo tinha reservas de zinco, logo o Presidente resolve construir uma ferrovia  ligando a localidade ao norte do Chile. Por aqui diz-se que não foi o Presidente Arce que trouxe o trem a Bolívia, mas sim a corrupção do Presidente Arce. Ele era o dono da empresa de mineração.

O Presidente Aniceto Arce construiu para si a maior edificação da cidade: um palácio com quarenta janelas que destoa radicalmente da simplicidade das casas dos operários. O Presidente também construiu uma passagem secreta entre sua residência e a mina a fim de poder inspecionar os trabalhadores. Os mineiros o viam como o demônio, graças a seu poder de aparecer inadvertidamente no subterrâneo. O fato de que Aniceto Arce tinha uma má formação congênita no cóccix, o que formava um pequeno rabo ao final de sua coluna vertebral, ajudou a espalhar a lenda.

Pulacayao contava com um estádio de futebol, um cinema e o primeiro boliche do país. Trem era sinônimo de vanguarda no final do século XIX. A cidade foi importante para a história do sindicalismo na Bolívia. Ali foi fundado o primeiro sindicato do país e em 1945 os trabalhadores locais lançaram as Tesis de Pulacayo, um conjunto de demandas como jornada semanal de 40 horas e participação nos lucros da empresa. Essas demandas foram tomadas pelo movimento revolucionário que tomou o poder no país em 1952 com o Presidente Victor Paz Estensoro.

Em seu apogeu, Pulacayo chegou a ter 27,000 habitantes. Hoje residem apenas 12 famílias, que ainda exploram os minérios da montanha em sistema de cooperativa. O velho cinema, a sede do sindicato, as casas dos trabalhadores e o palácio de Aniceto Arce estão fechados, cobertos pela poeira. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) financiou um projeto de fomento turístico para o povoado, que resultou em placas informativas nas paredes da cidade. No entanto, não há transporte público entre Uyuni e Pulacayo e nenhuma empresa turística opera regularmente no povoado.

De lá seguimos em busca das múmias. Pela estrada passamos por incontáveis lhamas, vicuñas selvagens e rios sem vida por conta de metais pesados da atividade mineira. A paisagem misturava o marrom do deserto, o rosa dos campos de quinoa e o verde da vegetação rasteira da Tola, usada como lenha pelos locais. A montanha nevada de Chorolque era onipresente. Lá, a 5,600 metros de altura, extraía-se urânio para exportar para a Uniao Sovietica. A mina de Chorolque funcionava como cooperativa e uma vez em que o trabalhador comprava o direito a ser cooperado, passava seu quinhão de montanha de forma hereditária aos filhos. Contudo, os homens ficaram estéreis pelo contato com o urânio e as mulheres assumiram a tarefa de trabalhar nas minas. Chorolque é uma mina de viúvas.

Depois de 120 quilômetros chegamos ao povoado de Tica Tica. O nome do lugar significa “flores” em quechua. Em Tica Tica não havia flores. Tampouco havia asfalto. Nos dez quarteirões que formam o povoado contei dois automóveis. No coreto da praça principal uma lhama descansava sob a sombra de uma árvore. Em Tica Tica havia também uma quadra polidesportiva recém inaugurada. Essa foi uma constante nas cidadezinhas por onde passei no interior da Bolívia. Construir campos de futebol de grama sintética, ginásios e quadras de esporte é uma política ativa dos governos de Evo Moralez. Invariavelmente tais lugares são decorados com retratos de Evo. A escola primária local parecia, de fora, bem cuidada e pintada com murais alusivos aos povos originários ou à próceres da história boliviana. As escolas públicas que vi pela região de Uyuni pareciam todas estar em bom estado de conservação. Nelas não havia o rosto do Presidente. Em uma que outra havia o de Che Guevara.  

Em Tica Tica os locais paravam suas atividades para olhar-nos. Pareciam perguntar-se o que estávamos fazendo ali. Juan Carlos tinha a informação de um lugarenho de que ali perto havia múmias pré-hispânicas. Tomamos um desvio com nossa 4×4 e nos embrenhamos em um caminho cheio de pedregulhos rumo ao meio do nada. Seguimos por meia hora ao lado de um rio, com cactus em formas de candelabro e de bonecos. O único sinal de modernidade eram os fios de alta tensão de uma represa hidrelétrica próxima dali. Finalmente avistamos um conjunto de casebres com telhado de palha. Nos quintais secavam-se milhos e carne de charque. Um cão pastoreava ovelhas e anuncia nossa estranha chegada com latidos. Um senhor de idade se aproxima ao carro. Juan Carlos lhe pergunta sobre as múmias. Não entendi absolutamente nada do diálogo que se seguiu. O senhor, com cinco dentes na boca, misturava espanhol e quechua, e disse que padres loiros haviam levado as múmias. Juan Carlos explica que efetivamente uma congregação dinamarquesa esteve fazendo catequese na região nos anos 1950 e que diz-se que haviam ou levado à Europa ou escondido as múmias, que para o credo cristão eram uma forma de adoração pagã. Roberto levanta outra hipótese: se tais múmias existissem de fato, um local não as revelaria tão facilmente a um grupo de forasteiros em um Toyota 4×4.

No caminho de volta a Uyuni vemos ruínas do período colonial. Eram currais de pedra para que os transportadores de minérios descansassem suas lhamas e burros no longo caminho entre Potosí e o porto de Antofagasta, hoje pertencente ao Chile. Num caminho estreito somos cercados por um grupo de lhamas. Assim como os habitantes de Tica Tica, elas também pareciam se perguntar o que fazíamos por ali. Desligamos o carro e saímos. As lhamas são inofensivas e são o resultado de um longo processo de domesticação levado a cabo pelos povos Aymaras e Incas através dos séculos. Elas não se importam com nossa curiosidade de turistas e seguem sua rotina de comer pasto. Um lindo animal. Pela noite, volto a meu lugar favorito em Uyuni: o bar de Roberto. Para o jantar, hambúrguer de lhama, cuja carne é livre de colesterol. De fato, um lindo animal.

No dia seguinte acordamos cedo mais uma vez e rumamos ao Salar de Uyuni. Antes de chegar ao Salar, Roberto nos coloca uma venda nos olhos. Ao descer do carro e sacar a venda, a imensa brancura me cega. Roberto dá uma explicação meticulosa da formação geológica da região, que era mar há apenas 15,000 anos. Não consigo processar a informação. O Salar de Uyuni é a coisa mais impressionante que jamais vi. Num ponto em meio ao deserto branco de sal há dezenas de bandeiras que viajantes fincaram por ali: Austrália, Alemanha, Ilha de Reunião, Estados Unidos e…Montes Claros. Esse lugar é um patrimônio da humanidade. Almoçamos no Salar acompanhados do som do silêncio. Ao entardecer, as áreas alagadiças fazem a vista confundir onde começa e onde termina o céu. Uma experiência inesquecível. O escritor argentino Jorge Luis Borges dizia não gostar de espelhos pois multiplicavam a feiura humana. Borges jamais esteve no Salar de Uyuni.

Marco Bastos é um dos editores de EAGORA? e é analista político de América Latina.

San Pedro de Atacama: onde estão os nativos?

[IMAGEM: BOLIVIA]

Mark é corretor em uma empresa financeira em Londres. Ele detesta seu trabalho. Mark é responsável por conseguir locatários para edifícios de negócios. Todos os dias Mark toma o metrô em Richmond  -“um lugar cheio de verde, gente branca e rica”- e em quarenta e cinco minutos chega a seu escritório. O vagão está sempre tão cheio que a única possibilidade de não morrer de tédio no trajeto é conectar seu telefone do bolso de seu terno ao Spotify. Uma hora e meia de abstração do entorno, de segunda a sexta. Para o público brasileiro cabe aclarar que há lugares no planeta onde andar de transporte público não é vergonha nem sinônimo de pobreza.   

Mark é um profissional bem pago do capitalismo flexível. Ele recebe unicamente por dia trabalhado, o que chama de daily rate. Seu contrato não lhe dá direito a férias remuneradas nem a contribuição previdenciária. Sindicato parece ficção científica. No entanto, Mark tem direito a participação nos lucros da empresa e vive num bairro caro, come em restaurantes elegantes e passa férias regurlarmente no mundo hispânico. Espanha, Argentina, Cuba e Chile estão entre seus destinos favoritos.

Este húngaro de 34 anos de idade trocou Budapeste por Londres porque sua cidade natal ficara “demasiado pequena”. Como muitos imigrantes, Mark chegou a Grã-Bretanha sem amigos nem contatos e pode-se dizer que realizou o sonho britânico. Jovem, atlético, loiro, rico, solteiro e autoconfiante, Mark se deu conta, contudo, de que é um outsider. Quando vai a um bar e há contato visual com uma inglesa atraente, no momento em que a aborda seu sotaque o denuncia. Mark nunca conseguiu uma namorada nascida na Inglaterra. Para ele, as inglesas têm um sentido de superioridade em relação a homens imigrantes, especialmente do leste europeu: “uma bar-tender inglesa ganha até cinco vezes menos do que eu e ainda assim me olha de cima para baixo”. Segundo sua experiência, “as escocesas e irlandesas são mais abertas”.

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Do pudor acerca da morte

[Imagem de Gabriela Mistral]

Das surpresas que a vida me guardou, uma delas  foi a de ver um corpo ao meu lado balbuciando, apenas com poucos sinais vitais que precedem a morte. A experiência me faz refletir sobre o grau de pobreza de espírito e deselegância que parte do andar de cima manifestou pela morte da ex-Primeira Dama Marisa Letícia.

Fazendo memória, houve quem se refestelou com a dor alheia, quem levantou a hipótese de que a falecida havia fingindo a própria morte e mesmo médicos que sugeriram procedimentos para aumentar a dor do paciente.

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O povo e a cidade: a questão da soberania popular

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Em uma recente palestra proferida no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), o ilustre teórico político Andreas Kalivas discorreu criticamente sobre a tendência predominante dos tempos modernos ser a transferência quase total da soberania popular para o Estado. Em certo momento uma ouvinte o questionou: “professor, em um mundo onde as sociedades e economias estão cada vez mais complexas, o que poderá vir a substituir a forma Estado?” Sem hesitar, Kalivas respondeu: “a democracia”.

Ora, não é preciso muita observação para notar quem cada vez mais, a democracia tornou-se algo meramente procedimental. De tempos em tempos somos convidados a escolher entre distintos candidatos que, entre uma pequena discordância e outra, apresentam projetos políticos que necessariamente reproduzem a ordem sistêmica. Um exemplo: podemos sempre escolher entre mais ou menos intervenção estatal na economia de mercado, mas jamais ousar pensar em uma economia sem mercado ou uma democracia sem Estado. Sendo assim, como podemos, hoje, a partir das nossas práxis urbanas, pensar uma democracia na qual a soberania popular exista de fato? Mirar as experiências do passado, com seus sucessos e fracassos, pode ser uma boa maneira de buscar inspiração.

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Brexit: Uma breve história interminada

O caminho para a saída começou com um movimento oportunista e eleitoreiro (e como se provou agora, irresponsável) do Partido Conservador inglês e seu líder David Cameron para levar as eleições gerais de 2014. É importante explicar que o sistema político inglês não é proporcional: cada zona eleitoral elege um representante, o que tiver mais votos naquela zona, e o partido com mais representantes aponta o Primeiro Ministro. Ou seja: um partido pode ter um percentual expressivo dos votos e não eleger nenhum representante – basta que ele chegue em segundo lugar em várias zonas eleitorais, por exemplo. Esse sistema de “o vencedor leva tudo” estimula promessas como este referendo, já que o segundo lugar não vale de nada. Para levar o eleitorado mais conservador às urnas (já que o voto não é obrigatório) e roubar os votos da extrema direita, Cameron prometeu o referendo de saída da UE caso fosse reeleito sabendo que historicamente o Reino Unido tem uma população cética com relação aos benefícios da integração – benefícios que ironicamente já estão tão infiltrados na rotina do país que são difíceis de se fazer perceber. O oportunismo pagou, e o cálculo passou a ser usar o referendo para influenciar no formato da UE e, uma vez bem sucedidos, ter mais argumentos ainda para a campanha do fico (tanto o partido conservador, do governo, quanto o trabalhista, da oposição fizeram campanha pera permanência). Mas aí a coisa começou a enrolar.

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Qual é o problema do homenistério de Temer?

Do que as pessoas estão reclamando? Tem que colocar mulher só porque ela é mulher? A escolha não tem que ser pela competência?

A princípio esse argumento parece muito óbvio, irrefutável: claro que quem tem que entrar é sempre o mais competente, certo? Qual é o problema então? O primeiro problema é bem simples, mas importante porque vamos voltar a ele no final: a tal da competência. A composição ministerial no presidencialismo de coalizão, especialmente em um sistema multipardário tão amplo quanto o nosso, não tem nada a ver com competência: tem a ver com distribuição e apoios, e isso está claro há bastante tempo. Vamos olhar para apenas dois exemplos recentes para confirmar isso: é impossível esquecer a trágica negociata que colocou o Pastor Marco Feliciano na comissão de Direitos Humanos da Câmara dos deputados e nas nossas vidas, dando plataforma nacional a um político que até então era só mais um. Não vou me aprofundar muito no governo Temer, que acabou de começar, mas vale notar que ele começa com os filhos de nada menos do que três caciques políticos da pior espécie da nossa nação ocupando ministérios: Jader Barbalho Filho, Sarney Filho, e Leonardo Picciani. Então acho que podemos corcordar que sim, seria legal que o ministro fosse sempre o cara mais competente no tema da pasta que ocupa, e que não, isso não existe.

Aqueles homens não são ministros por mérito técnico, mas por negociação política e partidária. Mas a outra pergunta continua: qual é o problema de serem todos homens? Vamos pensar no Brasil: as mulheres são metade da população brasileira, e representaram 57% das matrículas no ensino superior no Brasil entre 2005 e 2015. Meninas e mulheres tem melhor desempenho acadêmico do que o sexo masculino (e ainda assim quando se inserem no mercado de trabalho tem salários mais baixos), segundo estudo da Organização para Coorperação e Desenvolvimento Econômico. Com esses números e seguindo a teoria de “pega a vaga quem é mais competente” seria de se esperar que as mulheres ocupassem pouco mais da metade dos cargos deconfiança, já que aparentemente são melhor qualificadas, certo? Agora vamos a realidade: Um levantamento da Grant Thornton, uma multinacional de auditorias, mostrou que 57% das empresas brasileiras não tem uma única mulher em cargo de liderança (em 2012 eram apenas 26%). Das outras 43% das empresas, apenas 9% tem mulheres em cargos de CEO. Mulheres ocupam apenas 9,9% dos cargos legislativos, atrás de países como Arábia Saudita – aonde mulheres são proibidas de dirigir, mas ocupam 19,9% dos cargos; Paquistão – aonde familiares podem matar mulheres que tenham se envolvido em relações sexuais sem serem casadas e alegar que é “crime de honra”, mas ocupam 19,6% dos cargos; Afeganistão, 27,7%; Serra Leoa, 12,4%; Somália, 13,8%.

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Vitórias, vitórias para sempre

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Em 1996, o jornalista conservador Pat Buchanan, fundador do seminal periódico The American Conservative, lança uma insurgente campanha contra o influente senador Bob Dole do Kansas pela candidatura do partido republicano. Quatro anos antes, Clinton e seus “novos democratas” haviam derrotado o presidente George H. W. Bush e quebrado a hegemonia de 12 anos do partido na política nacional. Em 1994, durante o pleito legislativo, os republicanos haviam conquistado uma maioria parlamentar pela primeira vez em décadas nas costas de uma imensa onda fiscalista ancorada num documento, “Um Contrato com a América”, prometendo o Estado mínimo, o equilíbrio fiscal e demais bandeiras daquilo se viria a se consolidar como “o movimento conservador”.

A Rússia agonizava e a América, este impávido colosso, se projetava sobre o mundo como única potência de fato global. O reaganismo triunfava e mesmo Bill Clinton, o porta-estandarte daquilo que se passa por esquerda na “terra dos livres”, prometia reformar e encolher o Welfare State. Neste cenário de hegemonia completa do culto da desregulamentação, do livre comércio e do desmonte do New Deal, um colunista conservador de nome Samuel Francis escreve um artigo intitulado “Do Lar para a Nação”, em que ele aponta a forma que a coligação de Buchanan deveria assumir para tomar de assalto o partido de Lincoln das mãos do neoliberalismo. Lido mais de 20 anos depois, o texto é de uma presciência e de uma claridade assustadoras:

As forças do “centro”, emergindo das ruínas das velhas e autônomas classes média e trabalhadora. terminaram por concluir que a retórica libertária, pró-negócios, conservadora do Partido Republicano irrelevante, desagradável e até ameaçadora de seus interesses socioeconômicos.

A classe média do pós-segunda guerra era na realidade um proletariado afluente, dependente do governo federal por meio das leis trabalhistas, empréstimos de moradia a juros baixos, programas educacionais, grandes contratos de defesa e benefícios sociais como o seguro-desemprego.

Todas as variantes da doutrina conservadora rejeitaram estas e outras formas de atuação do Estado. Ao mesmo tempo, a Classe Dirigente se mostrou incapaz de diluiu as identidades e lealdades sociais, culturais e nacionais do proletariado centro-americano, e estes americanos se viram cada vez mais alienados da esquerda e suas políticas anti-nacionais e seu abraço de valores então derivados da contracultura.[1]

“Cedo ou tarde”, sentencia Francis, “enquanto as elites globalistas seguirem a arrastar este país a compromissos e conflitos internacionais, a presidir sobre a desindustrialização dos Estados Unidos e a deslegitimação de nossa cultura […] uma reação nacionalista é inevitável e provavelmente assumirá trajes populistas quando chegar. Quanto mais cedo isto ocorrer, melhor.”

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A Teoria de 68



Lembremos da inexistente Teoria de 68. E vamos por partes. O Brasil se encontra em uma crise política profunda, e apenas lembrando da Teoria de 68 teremos chance de evitar o pior. Temos diversos atores principais, mas falta um diretor. E assim vamos todos juntos rumo ao precipício, do qual apenas aqueles que creem se salvarão.

“O Nacionalismo não é uma causa. É um pretexto. Serve, no Brasil, para uma finalidade que é sordidamente contrária aos interesses da população.”

Carlos Lacerda

Na virada do 31 de Março de 1964 para o 1 de Abril, General Mourão Filho, homem de todas as horas e solução para todos os problemas desde de que era Capitão, pôs seus homens a descer a serra. Bravamente liderou sua tropa de Juiz de Fora rumo à Guanabara. Ele estava de pijama ao tomar a decisão, dizem que era rosa, e suponho com bolinhas, por que não? Amanhã, no Brasil, não haverá um Mourão entre as fileiras do Exército Brasileiro–agradeçam ao Geisel que deu fim à baderna na caserna e matou o Tenentismo de uma vez–mas aparentemente a direita brasileira encontrou um Moro.

“Quem for contra a abertura, eu prendo e arrebento.”

General Figueredo demonstrando seu espírito democrático.

A Gloriossíssima Revolução de 64–A Revolução do Pijama Rosa de Bolinhas–, foi recebida com aplausos quando veio, e portas se abriram a ela. Os tenentes estavam mais uma vez de volta ao poder, e a alta classe política Brasileira Carioca, Carioca mesmo quando Gaúcha, não resistiu. Carlos Lacerda, o Corvo, fez seu mise en scène recebendo as bravas tropas Brasileiras na capital do país com sua metralhadora INA. O Corvo: caçador de comunistas. Um Rogério Skylab avant-garde.  Lacerda representou a classe política e média de direita, inútil em resolver crises sem chamar seu irmão maior, o tenente que conhecia o país como ninguem, sempre teve projetos para ele desde 1914, mas sempre se viu preterido pelo pai, a Pátria, na hora de comandar a padaria. Dessa vez o irmão maior decidiu passar da segurança ao caixa e por lá ficou por gloriosos 21 anos. Brasil foi presenteado com seus amigos durante essas duas décadas. Sarney, Maluf, Antonio Carlos Magalhães. Dois políticos menores e um mijão antes da Revolução Gloriosa. Saíram gigantes. Se hoje continuamos com Maluf e Sarney não temos o Homem da Capa Preta; temos o Moro.

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Por que, para quem, por onde?


A recente eclosão da guerra no Donbass, o leste da Ucrânia que outrora fora um dos centros nevrálgicos da economia industrial soviética, novamente acendeu entre as lumières da intelectualidade o velho debate sobre a resistência do nacionalismo enquanto força política e social em nosso tempo.  Entre o burburinho usual sobre “a alma russa”, “as raízes mongólicas do autoritarismo eslavo”, etc., um fato saliente é frequentemente negligenciado: formado a partir da expansão belicosa do ducado moscovita, o império do Czar era um arrendado de etnias que tinham pouca ou nenhuma noção de sua existência enquanto agrupamento nacional. Viajando pela Ucrânia em fins do século XIX, um diplomata britânico afirmou:

Caso se pergunte ao camponês ucraniano médio qual é sua nacionalidade, ele responderá que é “ortodoxo (cristão)”, se pressionado a dizer se é russo, polaco ou ucraniano, ele muito provavelmente replicará que é um muzhik (camponês). Caso se insista em saber qual idioma ele fala, ele de certo dirá que fala “a língua local”. [1]

Os russos eram o maior grupo étnico do império, bem como sua aristocracia, mas as bases de legitimidade da monarquia eram feudal-religiosas, não etno-nacionais. Assim sendo, o nacionalismo russo surgiu de maneira hesitante, plenamente consciente de seu caráter espectral, advogado como era por setores de uma aristocracia frequentemente mais familiar com o francês do que com seu suposto idioma natal. Entre a aristocracia e o campesinato surge uma pequena, quase negligível classe de médicos, artistas, professores, engenheiros e advogados ligados à aristocracia por laços familiares, mas separada de seus elos com o latifúndio, ou seja, uma classe urbana e afluente que vê no nacionalismo à la française a saída do atraso, da “escuridão”, da “cabana decrépita do czarismo” (para usar a frase de Trotsky).

Este grupo foi a primeira intelligentsia (intelectualidade) a se enxergar como ator autônomo dentro da sociedade e como agente histórico e foi no seio desta “classe” em que ocorreram todos os grandes debates políticos e artísticos da Rússia até as revoluções de 1905 e 1917. Os compositores, pintores e escritores (Chekov e Dostoievski, mas não Tolstoy e Turgenev, ambos aristocratas) e até mesmo os social-democratas (dos quais os bolcheviques de Lênin eram uma facção) que conturbaram estes anos eram oriundos desta fatia da pirâmide social.  Um olhar atento ao papel da intelligentsia nos estertores do Czarismo é útil, como um “espelho em enigma” (para citar a Bíblia, Coríntios 13:12), para compreender as dinâmicas a ditar o debate sobre a política brasileira neste que parece ser o crepúsculo do governo do PT.

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Faça a coisa certa

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O Brasil vive um momento de crise e crises costumam despertar o pior que há em nós – intolerância, rancor, falta de comprometimento. No entanto, por que não podemos despertar o nosso melhor lado? Não há um destino incontornável que estabeleça que somos medíocres, que devemos permanecer um país pobre, desigual, violento e tecnologicamente atrasado. Há uma centena de boas causas a espera de pessoas engajadas. Uma centena de lutas que valem a pena ser disputadas. Mendigos com fome, refugiados buscando um novo começo, fracos e estigmatizados que enfrentam violência por sua opção sexual ou sua cor de pele, sua religião ou sua classe social. Há uma série de problemas em busca de quem queira solucioná-los: árvores a serem plantadas, ruas a serem limpas, muros inteiros a serem pintados e desenhados, escolas a serem concertadas.

Não há hierarquia entre quais causas são mais ou menos justas, mais ou menos urgentes, mas o que é certo é que você não mudará o país parando o seu carro com adesivo “todos somos juiz Moro” em cima da calçada, bloqueando a passagem de um cadeirante. Da mesma forma jogar lixo no chão ou passar uma vida com mal humor e dedos inquisitivos no Facebook não fará seu bairro mais limpo e sua cidade um lugar melhor para morar.

A propósito do mal humor, ele não é somente um sentimento de foro íntimo. Ele é uma atitude social que contamina os que estão ao redor, que leva a inação, ao resmungo, à busca por culpados. Vamos buscar e criar soluções. Há inúmeros casos, desde adolescentes paulistas que mantiveram suas escolas abertas e reformaram seus edifícios, até grupos que se dispõem a limpar parques públicos para usufruto de todos. Há um sem número de jovens doando seu tempo em pré-vestibulares comunitários e pessoas de todas as idades que buscam alimentar aqueles cuja única refeição do dia será uma sopa.

Os problemas são muitos e urgentes. Engajar-se em um trabalho comunitário ou à uma causa pública não mudará o país de uma hora para outra, mas talvez melhore sua rua, sua comunidade e a consciência dos que lhe cercam. O governo é corrupto e ineficiente em todos os seus níveis administrativos.

Trabalha-se quatro meses apenas para pagar impostos em troca de serviços públicos medíocres. Uma fila no Detran pode tomar três, quatro horas do dia de trabalho de um cidadão, que esperará numa fila sem ar condicionado no verão carioca, se tiver sorte. Em caso de azar pode morrer na calçada em frente a um hospital estadual. Há muitos exemplos possíveis: falta de coleta de esgoto, violência policial, burocracia bizantina. Muitos dos problemas que nossa história forjou são difíceis de serem resolvidos apenas com a mobilização de pessoas. Requerem aparato governamental, mudanças institucionais, vultosos recursos financeiros, mas mesmo assim reunir os vizinhos e amigos para denunciar esses problemas, forjar coalizões, buscar a melhor informação possível a respeito são formas

Só quem mudará esse país é a sociedade civil organizada. Em 2016 pare de (somente) reclamar e faça a coisa certa.

*Marco Bastos, botafoguense e carioca, é um dos editores da EAGORA?.