Brexit: Uma breve história interminada

O caminho para a saída começou com um movimento oportunista e eleitoreiro (e como se provou agora, irresponsável) do Partido Conservador inglês e seu líder David Cameron para levar as eleições gerais de 2014. É importante explicar que o sistema político inglês não é proporcional: cada zona eleitoral elege um representante, o que tiver mais votos naquela zona, e o partido com mais representantes aponta o Primeiro Ministro. Ou seja: um partido pode ter um percentual expressivo dos votos e não eleger nenhum representante – basta que ele chegue em segundo lugar em várias zonas eleitorais, por exemplo. Esse sistema de “o vencedor leva tudo” estimula promessas como este referendo, já que o segundo lugar não vale de nada. Para levar o eleitorado mais conservador às urnas (já que o voto não é obrigatório) e roubar os votos da extrema direita, Cameron prometeu o referendo de saída da UE caso fosse reeleito sabendo que historicamente o Reino Unido tem uma população cética com relação aos benefícios da integração – benefícios que ironicamente já estão tão infiltrados na rotina do país que são difíceis de se fazer perceber. O oportunismo pagou, e o cálculo passou a ser usar o referendo para influenciar no formato da UE e, uma vez bem sucedidos, ter mais argumentos ainda para a campanha do fico (tanto o partido conservador, do governo, quanto o trabalhista, da oposição fizeram campanha pera permanência). Mas aí a coisa começou a enrolar.

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Qual é o problema do homenistério de Temer?

Do que as pessoas estão reclamando? Tem que colocar mulher só porque ela é mulher? A escolha não tem que ser pela competência?

A princípio esse argumento parece muito óbvio, irrefutável: claro que quem tem que entrar é sempre o mais competente, certo? Qual é o problema então? O primeiro problema é bem simples, mas importante porque vamos voltar a ele no final: a tal da competência. A composição ministerial no presidencialismo de coalizão, especialmente em um sistema multipardário tão amplo quanto o nosso, não tem nada a ver com competência: tem a ver com distribuição e apoios, e isso está claro há bastante tempo. Vamos olhar para apenas dois exemplos recentes para confirmar isso: é impossível esquecer a trágica negociata que colocou o Pastor Marco Feliciano na comissão de Direitos Humanos da Câmara dos deputados e nas nossas vidas, dando plataforma nacional a um político que até então era só mais um. Não vou me aprofundar muito no governo Temer, que acabou de começar, mas vale notar que ele começa com os filhos de nada menos do que três caciques políticos da pior espécie da nossa nação ocupando ministérios: Jader Barbalho Filho, Sarney Filho, e Leonardo Picciani. Então acho que podemos corcordar que sim, seria legal que o ministro fosse sempre o cara mais competente no tema da pasta que ocupa, e que não, isso não existe.

Aqueles homens não são ministros por mérito técnico, mas por negociação política e partidária. Mas a outra pergunta continua: qual é o problema de serem todos homens? Vamos pensar no Brasil: as mulheres são metade da população brasileira, e representaram 57% das matrículas no ensino superior no Brasil entre 2005 e 2015. Meninas e mulheres tem melhor desempenho acadêmico do que o sexo masculino (e ainda assim quando se inserem no mercado de trabalho tem salários mais baixos), segundo estudo da Organização para Coorperação e Desenvolvimento Econômico. Com esses números e seguindo a teoria de “pega a vaga quem é mais competente” seria de se esperar que as mulheres ocupassem pouco mais da metade dos cargos deconfiança, já que aparentemente são melhor qualificadas, certo? Agora vamos a realidade: Um levantamento da Grant Thornton, uma multinacional de auditorias, mostrou que 57% das empresas brasileiras não tem uma única mulher em cargo de liderança (em 2012 eram apenas 26%). Das outras 43% das empresas, apenas 9% tem mulheres em cargos de CEO. Mulheres ocupam apenas 9,9% dos cargos legislativos, atrás de países como Arábia Saudita – aonde mulheres são proibidas de dirigir, mas ocupam 19,9% dos cargos; Paquistão – aonde familiares podem matar mulheres que tenham se envolvido em relações sexuais sem serem casadas e alegar que é “crime de honra”, mas ocupam 19,6% dos cargos; Afeganistão, 27,7%; Serra Leoa, 12,4%; Somália, 13,8%.

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Vitórias, vitórias para sempre

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Em 1996, o jornalista conservador Pat Buchanan, fundador do seminal periódico The American Conservative, lança uma insurgente campanha contra o influente senador Bob Dole do Kansas pela candidatura do partido republicano. Quatro anos antes, Clinton e seus “novos democratas” haviam derrotado o presidente George H. W. Bush e quebrado a hegemonia de 12 anos do partido na política nacional. Em 1994, durante o pleito legislativo, os republicanos haviam conquistado uma maioria parlamentar pela primeira vez em décadas nas costas de uma imensa onda fiscalista ancorada num documento, “Um Contrato com a América”, prometendo o Estado mínimo, o equilíbrio fiscal e demais bandeiras daquilo se viria a se consolidar como “o movimento conservador”.

A Rússia agonizava e a América, este impávido colosso, se projetava sobre o mundo como única potência de fato global. O reaganismo triunfava e mesmo Bill Clinton, o porta-estandarte daquilo que se passa por esquerda na “terra dos livres”, prometia reformar e encolher o Welfare State. Neste cenário de hegemonia completa do culto da desregulamentação, do livre comércio e do desmonte do New Deal, um colunista conservador de nome Samuel Francis escreve um artigo intitulado “Do Lar para a Nação”, em que ele aponta a forma que a coligação de Buchanan deveria assumir para tomar de assalto o partido de Lincoln das mãos do neoliberalismo. Lido mais de 20 anos depois, o texto é de uma presciência e de uma claridade assustadoras:

As forças do “centro”, emergindo das ruínas das velhas e autônomas classes média e trabalhadora. terminaram por concluir que a retórica libertária, pró-negócios, conservadora do Partido Republicano irrelevante, desagradável e até ameaçadora de seus interesses socioeconômicos.

A classe média do pós-segunda guerra era na realidade um proletariado afluente, dependente do governo federal por meio das leis trabalhistas, empréstimos de moradia a juros baixos, programas educacionais, grandes contratos de defesa e benefícios sociais como o seguro-desemprego.

Todas as variantes da doutrina conservadora rejeitaram estas e outras formas de atuação do Estado. Ao mesmo tempo, a Classe Dirigente se mostrou incapaz de diluiu as identidades e lealdades sociais, culturais e nacionais do proletariado centro-americano, e estes americanos se viram cada vez mais alienados da esquerda e suas políticas anti-nacionais e seu abraço de valores então derivados da contracultura.[1]

“Cedo ou tarde”, sentencia Francis, “enquanto as elites globalistas seguirem a arrastar este país a compromissos e conflitos internacionais, a presidir sobre a desindustrialização dos Estados Unidos e a deslegitimação de nossa cultura […] uma reação nacionalista é inevitável e provavelmente assumirá trajes populistas quando chegar. Quanto mais cedo isto ocorrer, melhor.”

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A Teoria de 68



Lembremos da inexistente Teoria de 68. E vamos por partes. O Brasil se encontra em uma crise política profunda, e apenas lembrando da Teoria de 68 teremos chance de evitar o pior. Temos diversos atores principais, mas falta um diretor. E assim vamos todos juntos rumo ao precipício, do qual apenas aqueles que creem se salvarão.

“O Nacionalismo não é uma causa. É um pretexto. Serve, no Brasil, para uma finalidade que é sordidamente contrária aos interesses da população.”

Carlos Lacerda

Na virada do 31 de Março de 1964 para o 1 de Abril, General Mourão Filho, homem de todas as horas e solução para todos os problemas desde de que era Capitão, pôs seus homens a descer a serra. Bravamente liderou sua tropa de Juiz de Fora rumo à Guanabara. Ele estava de pijama ao tomar a decisão, dizem que era rosa, e suponho com bolinhas, por que não? Amanhã, no Brasil, não haverá um Mourão entre as fileiras do Exército Brasileiro–agradeçam ao Geisel que deu fim à baderna na caserna e matou o Tenentismo de uma vez–mas aparentemente a direita brasileira encontrou um Moro.

“Quem for contra a abertura, eu prendo e arrebento.”

General Figueredo demonstrando seu espírito democrático.

A Gloriossíssima Revolução de 64–A Revolução do Pijama Rosa de Bolinhas–, foi recebida com aplausos quando veio, e portas se abriram a ela. Os tenentes estavam mais uma vez de volta ao poder, e a alta classe política Brasileira Carioca, Carioca mesmo quando Gaúcha, não resistiu. Carlos Lacerda, o Corvo, fez seu mise en scène recebendo as bravas tropas Brasileiras na capital do país com sua metralhadora INA. O Corvo: caçador de comunistas. Um Rogério Skylab avant-garde.  Lacerda representou a classe política e média de direita, inútil em resolver crises sem chamar seu irmão maior, o tenente que conhecia o país como ninguem, sempre teve projetos para ele desde 1914, mas sempre se viu preterido pelo pai, a Pátria, na hora de comandar a padaria. Dessa vez o irmão maior decidiu passar da segurança ao caixa e por lá ficou por gloriosos 21 anos. Brasil foi presenteado com seus amigos durante essas duas décadas. Sarney, Maluf, Antonio Carlos Magalhães. Dois políticos menores e um mijão antes da Revolução Gloriosa. Saíram gigantes. Se hoje continuamos com Maluf e Sarney não temos o Homem da Capa Preta; temos o Moro.

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Por que, para quem, por onde?


A recente eclosão da guerra no Donbass, o leste da Ucrânia que outrora fora um dos centros nevrálgicos da economia industrial soviética, novamente acendeu entre as lumières da intelectualidade o velho debate sobre a resistência do nacionalismo enquanto força política e social em nosso tempo.  Entre o burburinho usual sobre “a alma russa”, “as raízes mongólicas do autoritarismo eslavo”, etc., um fato saliente é frequentemente negligenciado: formado a partir da expansão belicosa do ducado moscovita, o império do Czar era um arrendado de etnias que tinham pouca ou nenhuma noção de sua existência enquanto agrupamento nacional. Viajando pela Ucrânia em fins do século XIX, um diplomata britânico afirmou:

Caso se pergunte ao camponês ucraniano médio qual é sua nacionalidade, ele responderá que é “ortodoxo (cristão)”, se pressionado a dizer se é russo, polaco ou ucraniano, ele muito provavelmente replicará que é um muzhik (camponês). Caso se insista em saber qual idioma ele fala, ele de certo dirá que fala “a língua local”. [1]

Os russos eram o maior grupo étnico do império, bem como sua aristocracia, mas as bases de legitimidade da monarquia eram feudal-religiosas, não etno-nacionais. Assim sendo, o nacionalismo russo surgiu de maneira hesitante, plenamente consciente de seu caráter espectral, advogado como era por setores de uma aristocracia frequentemente mais familiar com o francês do que com seu suposto idioma natal. Entre a aristocracia e o campesinato surge uma pequena, quase negligível classe de médicos, artistas, professores, engenheiros e advogados ligados à aristocracia por laços familiares, mas separada de seus elos com o latifúndio, ou seja, uma classe urbana e afluente que vê no nacionalismo à la française a saída do atraso, da “escuridão”, da “cabana decrépita do czarismo” (para usar a frase de Trotsky).

Este grupo foi a primeira intelligentsia (intelectualidade) a se enxergar como ator autônomo dentro da sociedade e como agente histórico e foi no seio desta “classe” em que ocorreram todos os grandes debates políticos e artísticos da Rússia até as revoluções de 1905 e 1917. Os compositores, pintores e escritores (Chekov e Dostoievski, mas não Tolstoy e Turgenev, ambos aristocratas) e até mesmo os social-democratas (dos quais os bolcheviques de Lênin eram uma facção) que conturbaram estes anos eram oriundos desta fatia da pirâmide social.  Um olhar atento ao papel da intelligentsia nos estertores do Czarismo é útil, como um “espelho em enigma” (para citar a Bíblia, Coríntios 13:12), para compreender as dinâmicas a ditar o debate sobre a política brasileira neste que parece ser o crepúsculo do governo do PT.

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Faça a coisa certa

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O Brasil vive um momento de crise e crises costumam despertar o pior que há em nós – intolerância, rancor, falta de comprometimento. No entanto, por que não podemos despertar o nosso melhor lado? Não há um destino incontornável que estabeleça que somos medíocres, que devemos permanecer um país pobre, desigual, violento e tecnologicamente atrasado. Há uma centena de boas causas a espera de pessoas engajadas. Uma centena de lutas que valem a pena ser disputadas. Mendigos com fome, refugiados buscando um novo começo, fracos e estigmatizados que enfrentam violência por sua opção sexual ou sua cor de pele, sua religião ou sua classe social. Há uma série de problemas em busca de quem queira solucioná-los: árvores a serem plantadas, ruas a serem limpas, muros inteiros a serem pintados e desenhados, escolas a serem concertadas.

Não há hierarquia entre quais causas são mais ou menos justas, mais ou menos urgentes, mas o que é certo é que você não mudará o país parando o seu carro com adesivo “todos somos juiz Moro” em cima da calçada, bloqueando a passagem de um cadeirante. Da mesma forma jogar lixo no chão ou passar uma vida com mal humor e dedos inquisitivos no Facebook não fará seu bairro mais limpo e sua cidade um lugar melhor para morar.

A propósito do mal humor, ele não é somente um sentimento de foro íntimo. Ele é uma atitude social que contamina os que estão ao redor, que leva a inação, ao resmungo, à busca por culpados. Vamos buscar e criar soluções. Há inúmeros casos, desde adolescentes paulistas que mantiveram suas escolas abertas e reformaram seus edifícios, até grupos que se dispõem a limpar parques públicos para usufruto de todos. Há um sem número de jovens doando seu tempo em pré-vestibulares comunitários e pessoas de todas as idades que buscam alimentar aqueles cuja única refeição do dia será uma sopa.

Os problemas são muitos e urgentes. Engajar-se em um trabalho comunitário ou à uma causa pública não mudará o país de uma hora para outra, mas talvez melhore sua rua, sua comunidade e a consciência dos que lhe cercam. O governo é corrupto e ineficiente em todos os seus níveis administrativos.

Trabalha-se quatro meses apenas para pagar impostos em troca de serviços públicos medíocres. Uma fila no Detran pode tomar três, quatro horas do dia de trabalho de um cidadão, que esperará numa fila sem ar condicionado no verão carioca, se tiver sorte. Em caso de azar pode morrer na calçada em frente a um hospital estadual. Há muitos exemplos possíveis: falta de coleta de esgoto, violência policial, burocracia bizantina. Muitos dos problemas que nossa história forjou são difíceis de serem resolvidos apenas com a mobilização de pessoas. Requerem aparato governamental, mudanças institucionais, vultosos recursos financeiros, mas mesmo assim reunir os vizinhos e amigos para denunciar esses problemas, forjar coalizões, buscar a melhor informação possível a respeito são formas

Só quem mudará esse país é a sociedade civil organizada. Em 2016 pare de (somente) reclamar e faça a coisa certa.

*Marco Bastos, botafoguense e carioca, é um dos editores da EAGORA?. 

Cento e onze tiros

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A perda de um filho sempre foi a maior de todas as tragédias, o summum malum da experiência humana. O livro do Gênesis sublinha a dedicação de Abraão a Deus ao descrever sua disposição em sacrificar o próprio rebento aos desejos da divindade.  O quinto ato de Rei Lear ainda assombra, quatrocentos e doze anos após sua primeira performance: Lear entra em cena urrando de desespero, com o corpo de sua filha, Cordélia, a caçula, a única que não o traiu, em seus braços. “Por que devem o cachorro, o cavalo e o rato viver e você não mais respirar, a não voltar, nunca, nunca, nunca!” berra o rei celta. Shakespeare, que sempre preferiu costurar o visceral de suas peças no em brocados de palavras, não lança mão de sua eloquência ao retratar esta que é a maior das dores. Lear entra em cena com a mais básica das falas: “Howl! Howl! Howl!” (a marcação teatral elisabetana para gritos, muitos gritos).

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Batido e não mexido

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Em idos de 1997, a revista CARAS, por razões insondáveis, decidiu lançar todos os filmes do 007 em VHS. A cada duas semanas, uma nova fita acompanhada de uma revista com trívia e curiosidades chegava às bancas brasileiras. Por motivos que ainda me escapam, consegui convencer minha mãe a desembolsar os então salgados 19 reais. Embora o primeiro longa daquela que viria a ser a mais duradoura franquia da história do cinema fosse 007 Contra o Satânico Dr. No, a coleção de CARAS começou com Goldfinger, possivelmente o melhor filme de toda a série.

Cheguei em casa e logo coloquei a fita no tenebroso “tocador” do quarto de meus pais. Tudo se inicia com James Bond “na América Latina” (donde?) escarafunchando um laboratório de drogas. Saindo do mar, ele tira sua roupa de mergulho, por baixo da qual estava um reluzente, e nem um pouco amarrotado, smoking branco.  Em seguida nosso protagonista é atacado por uma dançarina/assassina que ele termina por despachar ao jogar um ventilador na banheira em que ela estava. Após eletrocutá-la, James Bond sorri e diz “que chocante, não é mesmo?”. No dia seguinte, pedi para minha mãe me comprar um smoking – pedido este que ela teve o bom senso de não atender. Joãozinho sonhava em ser futebolista, Mariazinha, uma chef famosa. A partir daquele momento, eu desejei ser Bond, James Bond. Já no recreio eu pedi para o moço da lanchonete preparar um suco de laranja “batido, não mexido”. Ele não entendeu.

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Domingo em Buenos Aires

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Hoje os argentinos vão as ruas eleger um novo Presidente da República. Daniel Scioli é o favorito a ganhar no primeiro turno. Segundo a lei eleitoral argentina, o candidato ganha no primeiro turno quando alcança os 45% dos votos válidos ou chega aos 40% de votos válidos com uma diferencia superior a 10% sobre o segundo colocado. Nas pesquisas Scioli surge entre 42% e 36%, seguido de Mauricio Macri entre 28% e 27% e, em terceiro lugar Sérgio Massa entre 21% e 19%.

O blog da revista Eagora? preparou um perfil dos candidatos sem igual na mídia brasileira para o nosso leitor ficar bem informado e impressionar na mesa do bar.

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O futuro da saudade

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Sempre gostei de ler a correspondência de escritores, uma instituição anglo-saxã de saliência especial na Grã-Bretanha. Yeats, Hardy, Carroll, Tolkien, Auden… Todos estes tiveram suas Collected Letters publicadas. Lê-las é uma experiência fascinante, pois nos é oferecida uma janela a uma dimensão inacessível de quase todos os indivíduos célebres: A oportunidade de ver uma vida em progresso, com seus falsos inícios, suas tentativas que por vez dão em nada, esperanças, sonhos, pessimismo. Recomendo, por exemplo, a qualquer pessoa interessada na história recente do Brasil que folheie a correspondência entre os poetas americanos Elizabeth Bishop e Robert ‘Cal’ Lowell. Bishop passou boa parte de sua vida no Brasil, vivendo com a socialite e arquiteta Lota de Macedo, e Cal a visitou diversas vezes. Uma foto dos dois em Copacabana ilustra esse artigo. As impressões dela de Lacerda, por exemplo, são preciosas por coloridas e ocasionalmente sagazes. Lowell é enfático, escrevendo que o governador da Guanabara o lembrou  “de Robert Kennedy, me dando uma sensação assustadora de ambição e poder”. Sobre 1964, ensimesmada como estava nas luzes da elite liberal do Rio de Janeiro, Bishop considera ter sido o golpe “uma revolução rápida e bonita”. Tais conceitos não chocam os historicamente versados, já que a amante de Elizabeth transitava nos mais altos círculos da society carioca, círculos estes que só desembarcariam do regime com o fracasso do Castelismo, em 1967.

A correspondência foi, por séculos, uma das poucas formas possíveis de engajar alguém que não está mais aqui. Diários também foram e seguem sendo outra forma de se familiarizar com o pretérito. Pode-se, por exemplo, estimar quando O Conto de Genjii, considerado por muitos o primeiro romance moderno, foi escrito pelos diários deixado para trás pelas cortesãs e cocumbinas do imperador do Japão, alguns dos quais redigidos faz mais  de mil anos. Num deles, uma jovem relata ter se recusado a sair de casa até terminar o mais recente capítulo da saga. “Nada do que é humano me é estranho” lecionava o velho Terêncio, e certo ele estava, já que qualquer leitor adolescente de Harry Potter se identificaria com a fixação da jovem cortesã.

Mas para aqueles entre nós cujos antepassados e familiares não preservaram vasta trilha de papel, essa interação com o passado se dá de formas limitadas. Uma foto aqui e acolá, com uma dedicatória no verso, talvez uma velha fita VHS do batizado de alguém. Postais. A saudade das gerações que nos antecederam era circunscrita pela escassez  de fios condutores ao passado. Meu bisavô, Ernani Suarez Nuñez, foi um dos primeiros a utilizar uma filmadora Pathé Baby no Brasil. Tenho em mãos cerca de 6 horas de filmagens dele, realizadas entre 1927 e meados dos anos trinta. Assisti-las é um exercício fascinante. Meu momento favorito é aquele em que cinco “malandros” (para usar a gíria da época), negros e pobres, sem cerimônia nem pudor, tiram a roupa e se põem a nadar pelados no meio do mulherio da sociedade carioca. Longe de se escandalizar, as mesmas riem e jogam água nos rapazes. Ernani achou a cena fascinante – ele afunda até a cintura n’água para capturá-la.  Mostrei a cena para um grupo de amigos americanos de minha universidade e o mesmos não conseguiam crer em seus olhos. Cena semelhante na Myrtle Beach de então, em South Carolina, certamente terminaria numa “grande cavalgada” dos cavaleiros da Klu Klux Klan. Até nosso racismo sofre da languidez tropical. O Papa Urbano bem sabia que, abaixo do Equador, não existe pecado.

Se lamentamos o fim da correspondência, por vezes negligenciamos os potenciais diversos que a pós-modernidade digital nos oferece. O facebook, por exemplo, já se dispõe a converter em “páginas memoriais” os perfis daqueles entre seus usuários que já partiram dessa para melhor. Salvo um apocalipse de proporções bíblicas, é bem possível que a maioria dos imensos complexos de servidores que hoje compõem o “pulmão” da internet sobreviva a qualquer cataclisma climático. A evolução tecnológica deve tornar a vasta maioria dos arquivos a flutuar hoje na “nuvem” ilegíveis em  algum momento do porvir, mas estou certo que nossos descendentes virão a desvendar os segredos imagem JPEG e das bases de dados. Nossos filhos e netos provavelmente não terão velhos cartões postais para admirar, mas irão usufruir de um acesso sem precedentes a nossas vidas em evolução, nossos ids construídos para admiração alheia em murais, posts e afins. Juquinha, jovem paulistano a nascer em 2050, poderá ler, meio século mais tarde, que seu vovô fez comentários diversos sobre a bunda da Paola Oliveira num certo dia de 2014. Ou que vovó realmente gostava de memes de gatos, pokemon e afins quando estava no ensino médio. “Vlogs” no youtube. Quão pitorescas serão essas modas miméticas para as crianças do futuro!

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